sábado, 23 de junho de 2012

TERROR – UMA REJEIÇÃO

CAPÍTULO IX
TERROR UMA REJEIÇÃO
Ilustração por Inês

Os dias que se seguiram ao transplante caracterizavam-se

pelo perigo de rejeição. A fase mais perigosa era a dos primeiros

três meses e por isso o Vitinho tomava ‘uma bateria’ de

medicamentos, religiosamente, e segundo uma posologia rígida

que nos tinham préviamente dado.

71
Eram eles:

– FK 506 - Tacrolimus;

– Deflazacorte (gotas – posteriormente substituido

pela Prednisolona em comprimidos);

– Azatioprina (posteriormente substituido

pelo Micofenolato de mofetil);

– Aciclovir;

– Sulfametoxazol + Trimetoprim;

– Magnésio;

– Ácido Acetilsalícilico;

– Dipiridamol;

– Ácido Ursodesoxicólico;

– Ácido Fólico;

– Colecalciferol;

– e Ácido Ascórbico.

Os primeiros transplantados da história da medicina

tiveram uma esperança de vida média muito reduzida, o

problema comum era o processo de rejeição natural que se

desenvolvia nesses pacientes, logo na fase inicial pós-

-transplante. No fundo o que acontecia é que o sistema

imunológico detectava algo estranho, algo que não pertencia

àquele corpo e atacava-o! A dificuldade era esse sistema

imunológico não ter forma de reagir ‘inteligentemente’ e evitar a

auto-destruição do “seu dono”.

Por isso, para além do acto médico da cirurgia

propriamente dito, foi necessário evoluir noutro sentido, era

necessário enganar “as nossas próprias defesas”!

Com a descoberta da Ciclosporina, medicamento

imunomodulador (imunossupressor), revolucionou-se a

transplantação em geral e esta solução começou a ser encarada

com uma verdadeira alternativa de cura.

Paralelamente a medicina foi evoluindo, foi-se

72

aperfeiçoando, “afinaram” os cruzamentos dos

imunossupressores com os corticoides e apareceram novos

imunossupressores. No caso especifico da transplantação

hepática pediátrica, hoje, já temos resultados globais notáveis.

Actualmente a taxa de sobrevida ao fim de cinco anos é

elevadissima e esse indicador só se tornou possível,

precisamente porque o imunossupressor debilitou o sistema

imunológico e conseguiu controlar os tais ataques contra o novo

fígado! Por outras palavras, diminui-se ostensivamente “as

resistências naturais” do transplantado, o que o enfraquece

contra todas as doenças em geral, mas isso permite-lhe viver uma

vida normal, embora com alguns cuidados suplementares,

obviamente! Por isso é que todo o cuidado é pouco e tentamos

proteger o nosso filho de tudo o que são viroses, maleitas

contagiosas, etc.

O que é curioso, é que apesar disso tudo, as crianças

transplantadas desenvolvem “outro” sistema imunológico muito

próprio, por exemplo, este ultimo inverno tivemos lá em casa

várias ocorrências de gripes e constipações. Todos fomos

tocados e o Vitinho deve ter sido o que foi menos afectado e já

no ano passado tinha acontecido a mesma coisa!

Como disse no inicio deste capítulo, o perigo inicial era a

possibilidade de ocorrer uma rejeição. Logo após os primeiros

oito dias de alta, fomos novamente a Coimbra e os indicadores

hepáticos continuavam bem. Regressámos a Ovar “sem umas

toneladas” de peso em cima de nós e vivemos as três semanas

que se seguiram, como a família mais feliz do planeta!

Já não posso precisar quando aconteceu, mas na segunda

ou terceira vez que regressámos a Coimbra os valores das

enzimas tinham disparado, foi um duro golpe e que não

estávamos à espera! Tudo aquilo por que tínhamos passado ainda

estava muito “à flor da pele” e de repente tudo ficou novamente

em perigo!

A Dra.Carla explicou-nos que estávamos precisamente no

73

inicio de um processo de rejeição. O Vitinho teria de tomar umas

doses fortes de corticoides e submeter-se a uma biópsia hepática.

Sentimos novamente o chão a fugir-nos!

Voltámos a ser assaltados pelos mesmos fantasmas, foi

como levar um violento soco no estômago… ficamos sem ar e

com uma dor momentaneamente insuportável.

Mas porquê, qual a razão, e se a Cortisona não fizesse o

efeito pretendido! Iamos preparados para regressar nesse mesmo

dia a Ovar e agora, já sabiamos que tínhamos de ficar pelo menos

até ao dia seguinte!!

Deram-se os corticoides por via endovenosa e fomos para

a biópsia. Esta parte não correu lá muito bem, o problema foi

este, é que o técnico que executa a biópsia tem de espetar a

agulha no sítio certo, isto é, sem causar danos colaterais e num

bébé, isso pode não ser fácil por duas razões óbvias, primeiro

porque tudo é mais pequenino e depois, porque o bébé tem de

estar quieto. Só há uma forma de se garantir que ele esteja

estático, é com anestesia geral e foi aqui que as coisas não

começaram bem! O nosso filho estava desconfiado de que algo

iria acontecer e não queria largar a mãe, a nossa intenção era

colocar a máscara que o iria adormecer de forma subtil, só que,

forçaram-nos a deitá-lo confiantes que mal se colocasse a

máscara ele adormeceria, mas não, ele desatou a chorar ,

compulsivamente, e quando acordou, acordou exactamente no

mesmo tom…

Depois do descontrolo inicial, o Vitinho acabou por

acalmar mas ficou maçado e sentido. No dia seguinte os valores

tinham reduzido para os patamares correctos e quando chegaram

os resultados da biópsia soubemos que a rejeição tinha sido

“moderada”.

Felizmente, esta foi a única rejeição que ocorreu até hoje!

Presumimos que o problema teve origem num dos

medicamentos “base”. O que aconteceu foi que o corticoide que

era uma solução em conta-gotas (que neste caso actuava como

74

imunossupressor), ter sedimentado no fundo do frasco e nós não

nos termos apercebido disso. Na prática “o principio activo”

ficou agarrado ao frasco e nós inconscientemente, estávamos a

dar só soro, ou coisa parecida… O facto do vidro ser escuro

ajudou a esconder o problema e nós, ‘aselhas’, não nos

apercebemos disso!

Não sei porquê, achei que o problema não estava nem no

enxerto, nem na medicação, simplesmente pareceu-me que algo

nos devia ter escapado. Andei a vasculhar e reparei no tal

depósito, agitei, agitei e agitei o frasco, e ficou na mesma, ou

seja, algo de anormal aconteceu àquele frasco! Como me disse

uma vez o Dr. Emanuel a propósito de outra questão, por vezes

a resposta está nas coisas simples e é muito provável que,

tratando-se de um transplante muito recente, de um “protocolo”

que tem de ser seguido “à risca” e que daquela forma “foi

furado”, em principio, tínhamos aí a explicação para o sucedido.

Uma coisa é certa, a rejeição foi debelada e também por

isso não valia a pena pensar mais no assunto.

Regressámos a casa, para voltar a Coimbra pouco tempo

depois e confirmar que estava tudo ok.

Não “ganhámos para o susto”, enfim, também nós

tínhamos de aprender a viver com a ansiedade “desta doença”! O

nosso filho é um doente crónico, sem o ser, isto é, como toma

uma medicação que o acompanhará para sempre, logo, nessa

perspectiva é um doente crónico, ainda que esteja impecável e

75
“transpire” saúde!

Esta ansiedade não foi fácil de gerir no inicio, pois na 1ª

fase pós-transplante as “consultas de rotina” eram mensais. Nessas

consultas, entre muitas outras coisas, afere-se o nível de FK no

sangue e cruza-se esse valor com o valor das enzimas. Se o FK

estiver baixo e as enzimas ligeiramente altas, sobe-se o FK até à

próxima consulta, se o FK estiver baixo e as enzimas baixas, então

em principio mantem-se a mesma posologia. Se o FK estiver

demasiado baixo, sobe-se ligeiramente, mesmo que as enzimas

estejam bem. Para nós, até sabermos os valores exactos estávamos

sempre numa grande tensão, era dificil contermo-nos! O medo

falava sempre mais alto, o temor que as enzimas estivessem altas,

exageradamente altas! Com o passar dos tempos as consultas vão

espaçando cada vez mais, passam para intervalos de dois meses e

actualmente estão nos três meses. Mas a ansiedade continua a

mesma, essa é realmente dificil de contrariar!

Sempre que vamos a Coimbra, vamos com o sistema

nervoso “aos saltos”, no regresso é o relaxe completo, até se

torna perigoso, porque adormece a Lígia, adormece o nosso

filhote e eu, lá vou “bocejando atrás do bocejo” até finalmente

chegarmos a Ovar.

Por muito que nos tentemos mentalizar para este dia, algo

mais forte que nós esmaga-nos! É o medo, o medo incontrolável

que algo possa correr mal, que os resultados não sejam os

esperados e que tenhamos de reviver tudo outra vez.

76

Sem comentários:

Enviar um comentário